hermenêutica baratucha em jeito de despedida (ou o fim da putaria)
Como não sou um tipo sentimental seria de prever que deitasse o natal no bordel para trás das costas com a facilidade com que alguém expele fezes pelo anus quando está com diarreia. Digamos que enfrento isto como quem sabe que está meio obstipado mas mesmo assim tem que cagar porque se não arrisca-se. A diferença é que, continuando com o natal no bordel, não me arriscaria a nada de grave, ao contrário de quem se recusa a expelir cocó quando tem estado obstipado há uns dias. Este foi um blog engraçado, para mim, porque foi diferente de todos os que tive antes e provavelmente terei depois. A ideia era um blog muito underground. Não trouxe do nosso umbigo nenhum link e, pela segunda vez, impossibilitei comentários (da primeira vez foi aquele, ser jovem implica, que durou o quê? um mês? sou mesmo consistente pá), e assim vi as pessoas que me seguiam há já vários blogs lentamente a desaparecer. Provou-se, portanto, que nesta coisa dos blogs é como em tudo o resto. Auto-promoção. Concurso de popularidade. Quando um gajo caga nisso e se propõe a fazer algo diferente - pior, a não-linkar - deve ser tomado como um traidor ou algo do género. Facto é que o natal no bordel, apesar de ser o blog que durou mais tempo dos vários que mantive, foi sem dúvida o menos visitado e menos linkado, o que é estranho visto ter sido provavelmente o blog que eu, como leitor, mais gostaria. Seriamente.
Bom, mas às tantas um jovem farta-se de uma cena tão conceptual. Os blogs acabam por ser sempre um reflexo da vida dos bloggers (e quando não são, são uma merda), e de facto este natal no bordel tem-no sido, embora me tenha referido relativamente poucas vezes a situações concretas. Era para ser uma espécie de diário, mas não do tipo 'o zé foi à fonte', mais do género 'o zé foi à fonte e este post tem tudo a ver com isso mas ninguém o vai adivinhar ihihihihi' (este ihihihi simula um risinho estúpido). Na altura achei que seria muito cool, e a verdade é que foi. Diverti-me para caralho com este blog. Seriamente. Acho que nunca tinha escrito tão aberta e descomplexadamente. Até os contos que passei a escrever depois foram muito mais descomplexados que antes, simplesmente aprendi a cagar nos outros e ainda bem, torna as coisas mais verdadeiras (embora não necessariamente melhores, claro). Isto de ser um jovem adolescente (agora já não o sou, que entretanto passei a fase dos teens. foda-se) é assim: toda a gente diz ah os jovens são os únicos que fazem e dizem o que querem, que abençoados e o caralho, mas isso é uma merda, como toda a gente que foi jovem e se lembra disso para além do romantismo o sabe. Os jovens nunca dizem o que pensam realmente, dizem o que querem dizer, e isso não tem nada a ver com o que pensam, vivemos cheios de códigos próprios, difíceis de assimilar por serem tão subtis, quase invisíveis. Apesar de não gostar dessas merdas eu sou, como todos, um produto da idade, pelo que continuo a ser a mesma merda que todos os outros, mas penso que o natal no bordel foi um bom passo em frente na desconstrução deste campo minado que é a expressão pessoal pública de uma pessoa. Isto é importante perceber, porque foi neste contexto que a ideia deste blog surgiu: após uma data de blogs percebi que estava a escrever demasiado para um público. Tudo o que escrevia era muito filtrado. Sem querer, um tipo dá por si a gostar ou não de alguma coisa, a dizer ou não alguma coisa, pensando no efeito que isso terá no seu mundo, e quando digo no seu mundo digo também na parte que diz respeito ao 'diálogo' com os outros indivíduos (não o que eles são verdadeiramente, mas o seu eu público, os eus verdadeiros raramente se tocam). Quando percebi isto armei ao rebelde e fiz o blog que ninguém quereria ler. Ao não ter qualquer link para outros blogs (tive recentemente, durante uma semana, provavelmente fruto do cansaço relativo ao formato do blog) assegurei-me que quem o leria seria gente que o quereria realmente ler. Durante meses não tive um contador a funcionar aqui, porque nem queria saber quem o lia ou não. Depois lá cedi à tentação e coloquei um contador. Desta forma fui descobrindo boa parte das pessoas que me lêem, que não vou cá estar com merdas, são pouquíssimas, mas durante estes meses preferi ter pouquíssimas pessoas a ler-me sabendo que me queriam ler realmente, a imensas pessoas a ler-me sabendo que o faziam por qualquer outra razão. Não que isto esteja errado, de forma alguma, eu nunca acho nada errado - é tudo válido. Mas é bom saber que este, esta e esta são dos únicos que visitam regularmente este espaço a partir dos seus blogs, sei que o lêem porque gostam de ler, afinal o que qualquer pessoa decente que escreve quer (um deles conheço pessoalmente, o outro vi há uns tempos num café, o outro nunca vi na vida, ou se vi não sei). São três bloggers (odeio esta palavra, mas que se foda), de resto, que aprecio realmente muito, o que me deixa feliz.
Bom, e caguei no natal no bordel. Parece-me que as suas possibilidades não ficaram, nem de perto, completamente exploradas - havia tanta coisa que eu podia fazer ainda - mas perdi a paciência. Apercebi-me que se quiser fazer da escrita algo importante na minha vida prática, vou ter que 'comercializar' a própria escrita, e nos blogs comercializar a escrita é comercializar-mo-nos, porque como disse um blog só interessa enquanto reflexo da pessoa por trás, e é o que me proponho fazer agora, no apanhador no centeio, onde continuarei (embora continue a colocar os meus belíssimos desenhos no mau artista assumido, claro) . É engraçado, este apanhador no centeio, porque é tudo o que odiava quando comecei o natal no bordel, achava o típico blog de armante. No entanto estava a ser simplesmente estúpido, para não variar muito. É apenas outro tipo de escrita. Como eu sei perfeitamente que nunca me levarei mais ou menos a sério por escrever como se tivesse um pepino no cu (que é como escrevo muitas vezes no apanhador no centeio) ou como fosse um autêntico labrego (que é como escrevo aqui), deixo de ter esse tipo de problemas. Queria que a minha escrita fosse autêntica, mas mesmo aqui raras foram as vezes que foi realmente autêntica, uma expressão directa do que sou (ui), porque é mesmo assim. É muito difícil escrever autenticamente, exige muito trabalho e nem me parece que o produto disso seja necessariamente interessante. O mais importante, para mim, desde há muito tempo e cada vez mais conscientemente, é ser verdadeiro para mim próprio - e isto parece uma merda pirosa que eu nunca diria (especialmente aqui) mas que se justifica, porque quando me ponho a escrever sobre livros no apanhador no centeio é vital não deixar de ser fiel ao que sinto realmente em relação ao livro. Houve, aliás, uma vez em que isso quase não aconteceu ali - no texto sobre o livro do Eduardo Pitta -, porque sabia que podia causar sensação dizendo muito bem ou muito mal do livro. Isso afectou a minha própria percepção do livro, e às tantas estava confuso, já não sabia se tinha gostado ou não. Mas isto acontece a toda a gente, ou pelo menos quero acreditar que sim. Aliás, não acredito mesmo que assim não seja. O problema é que somos todos uns merdas, lá está, com esta dicotomia da verdade dentro de nós e da verdade fora de nós, que às tantas esta última transforma-se (ou apaga) a primeira. Contamina-nos. E não que isso esteja errado, mas luto por isso. Só porque acho que é estúpido, não quero que as coisas sejam assim, e também porque não tenho grande coisa de interesse para fazer, sim, apanharam-me.
E pronto, pá, um adeus ao natal no bordel. É pena separarmo-nos logo agora que o Rimbaud está ali em cima constantemente a mijar para cima do que escrevo (preferia que estivesse a cagar. Acho que assim acabaria por nunca deixar de aqui escrever. O meu sonho é ver alguém cagar literalmente em cima do que escrevo. A sério (fico triste ao pensar que no apanhador no centeio nunca escreverei uma coisa destas. Sinto-me mesmo bem a escrevê-las)). É pena, acima de tudo, separarmo-nos antes do natal - o meu outro sonho era escrever aqui um post de natal (talvez volte cá na altura, se isto ainda estiver de pé (como os que me seguem há uns tempos sabem, os meus blogs vão todos pelo cano blogosférico abaixo passado pouquíssimo tempo do seu fim)). Por outro lado estarei sempre aqui nos próximos tempos, pelo que continuamos todos a vermo-nos, que alegria. E até será interessante, para mim (porque apesar de tudo o apanhador no centeio é um blog escrito para mim, resulta da necessidade de expandir a escrita para uma área de maior auto-controle e auto-consciência), totalmente diferente disto, eu próprio apresentar-me-ei como um novo josé. No fundo isto tudo é assim, estamos sempre a mudar de acordo com as circunstâncias. Penso que sentirei falta das caralhadas a torto e a direito, do cagar despreocupado de ideias estúpidas e infantis, ignorando totalmente o que quem quer que seja possa pensar. Epá, soube bem, nunca tinha sido tanto assim. Fico é fodido por saber que nunca poderei ser tanto assim na vida real, cá fora. Ou, se o for, arrisco-me a uma vida de merda como todos os que o fizeram antes.
Lá estarei, portanto, no apanhador, um blog mais respeitável. No fundo outro blog com base num conceito previamente pensado, tal como este, embora o conceito seja o total oposto do deste. Quando me fartar, como já bem sabeis, lá escreverei um post de despedida e abalarei para outro sítio qualquer. Tem sido sempre assim, e assim é que deve ser, porque como diz não sei quem, a vida é demasiado curta. E eu não sei se concordo mas fica sempre bem dizer uma coisa assim, bonita e fofinha, num texto que se quer também assim, bonito e fofinho, mesmo que venha totalmente a despropósito. Foda-se.





