03 Dezembro 2007

hermenêutica baratucha em jeito de despedida (ou o fim da putaria)

Como não sou um tipo sentimental seria de prever que deitasse o natal no bordel para trás das costas com a facilidade com que alguém expele fezes pelo anus quando está com diarreia. Digamos que enfrento isto como quem sabe que está meio obstipado mas mesmo assim tem que cagar porque se não arrisca-se. A diferença é que, continuando com o natal no bordel, não me arriscaria a nada de grave, ao contrário de quem se recusa a expelir cocó quando tem estado obstipado há uns dias. Este foi um blog engraçado, para mim, porque foi diferente de todos os que tive antes e provavelmente terei depois. A ideia era um blog muito underground. Não trouxe do nosso umbigo nenhum link e, pela segunda vez, impossibilitei comentários (da primeira vez foi aquele, ser jovem implica, que durou o quê? um mês? sou mesmo consistente pá), e assim vi as pessoas que me seguiam há já vários blogs lentamente a desaparecer. Provou-se, portanto, que nesta coisa dos blogs é como em tudo o resto. Auto-promoção. Concurso de popularidade. Quando um gajo caga nisso e se propõe a fazer algo diferente - pior, a não-linkar - deve ser tomado como um traidor ou algo do género. Facto é que o natal no bordel, apesar de ser o blog que durou mais tempo dos vários que mantive, foi sem dúvida o menos visitado e menos linkado, o que é estranho visto ter sido provavelmente o blog que eu, como leitor, mais gostaria. Seriamente.
Bom, mas às tantas um jovem farta-se de uma cena tão conceptual. Os blogs acabam por ser sempre um reflexo da vida dos bloggers (e quando não são, são uma merda), e de facto este natal no bordel tem-no sido, embora me tenha referido relativamente poucas vezes a situações concretas. Era para ser uma espécie de diário, mas não do tipo 'o zé foi à fonte', mais do género 'o zé foi à fonte e este post tem tudo a ver com isso mas ninguém o vai adivinhar ihihihihi' (este ihihihi simula um risinho estúpido). Na altura achei que seria muito cool, e a verdade é que foi. Diverti-me para caralho com este blog. Seriamente. Acho que nunca tinha escrito tão aberta e descomplexadamente. Até os contos que passei a escrever depois foram muito mais descomplexados que antes, simplesmente aprendi a cagar nos outros e ainda bem, torna as coisas mais verdadeiras (embora não necessariamente melhores, claro). Isto de ser um jovem adolescente (agora já não o sou, que entretanto passei a fase dos teens. foda-se) é assim: toda a gente diz ah os jovens são os únicos que fazem e dizem o que querem, que abençoados e o caralho, mas isso é uma merda, como toda a gente que foi jovem e se lembra disso para além do romantismo o sabe. Os jovens nunca dizem o que pensam realmente, dizem o que querem dizer, e isso não tem nada a ver com o que pensam, vivemos cheios de códigos próprios, difíceis de assimilar por serem tão subtis, quase invisíveis. Apesar de não gostar dessas merdas eu sou, como todos, um produto da idade, pelo que continuo a ser a mesma merda que todos os outros, mas penso que o natal no bordel foi um bom passo em frente na desconstrução deste campo minado que é a expressão pessoal pública de uma pessoa. Isto é importante perceber, porque foi neste contexto que a ideia deste blog surgiu: após uma data de blogs percebi que estava a escrever demasiado para um público. Tudo o que escrevia era muito filtrado. Sem querer, um tipo dá por si a gostar ou não de alguma coisa, a dizer ou não alguma coisa, pensando no efeito que isso terá no seu mundo, e quando digo no seu mundo digo também na parte que diz respeito ao 'diálogo' com os outros indivíduos (não o que eles são verdadeiramente, mas o seu eu público, os eus verdadeiros raramente se tocam). Quando percebi isto armei ao rebelde e fiz o blog que ninguém quereria ler. Ao não ter qualquer link para outros blogs (tive recentemente, durante uma semana, provavelmente fruto do cansaço relativo ao formato do blog) assegurei-me que quem o leria seria gente que o quereria realmente ler. Durante meses não tive um contador a funcionar aqui, porque nem queria saber quem o lia ou não. Depois lá cedi à tentação e coloquei um contador. Desta forma fui descobrindo boa parte das pessoas que me lêem, que não vou cá estar com merdas, são pouquíssimas, mas durante estes meses preferi ter pouquíssimas pessoas a ler-me sabendo que me queriam ler realmente, a imensas pessoas a ler-me sabendo que o faziam por qualquer outra razão. Não que isto esteja errado, de forma alguma, eu nunca acho nada errado - é tudo válido. Mas é bom saber que este, esta e esta são dos únicos que visitam regularmente este espaço a partir dos seus blogs, sei que o lêem porque gostam de ler, afinal o que qualquer pessoa decente que escreve quer (um deles conheço pessoalmente, o outro vi há uns tempos num café, o outro nunca vi na vida, ou se vi não sei). São três bloggers (odeio esta palavra, mas que se foda), de resto, que aprecio realmente muito, o que me deixa feliz.
Bom, e caguei no natal no bordel. Parece-me que as suas possibilidades não ficaram, nem de perto, completamente exploradas - havia tanta coisa que eu podia fazer ainda - mas perdi a paciência. Apercebi-me que se quiser fazer da escrita algo importante na minha vida prática, vou ter que 'comercializar' a própria escrita, e nos blogs comercializar a escrita é comercializar-mo-nos, porque como disse um blog só interessa enquanto reflexo da pessoa por trás, e é o que me proponho fazer agora, no apanhador no centeio, onde continuarei (embora continue a colocar os meus belíssimos desenhos no mau artista assumido, claro) . É engraçado, este apanhador no centeio, porque é tudo o que odiava quando comecei o natal no bordel, achava o típico blog de armante. No entanto estava a ser simplesmente estúpido, para não variar muito. É apenas outro tipo de escrita. Como eu sei perfeitamente que nunca me levarei mais ou menos a sério por escrever como se tivesse um pepino no cu (que é como escrevo muitas vezes no apanhador no centeio) ou como fosse um autêntico labrego (que é como escrevo aqui), deixo de ter esse tipo de problemas. Queria que a minha escrita fosse autêntica, mas mesmo aqui raras foram as vezes que foi realmente autêntica, uma expressão directa do que sou (ui), porque é mesmo assim. É muito difícil escrever autenticamente, exige muito trabalho e nem me parece que o produto disso seja necessariamente interessante. O mais importante, para mim, desde há muito tempo e cada vez mais conscientemente, é ser verdadeiro para mim próprio - e isto parece uma merda pirosa que eu nunca diria (especialmente aqui) mas que se justifica, porque quando me ponho a escrever sobre livros no apanhador no centeio é vital não deixar de ser fiel ao que sinto realmente em relação ao livro. Houve, aliás, uma vez em que isso quase não aconteceu ali - no texto sobre o livro do Eduardo Pitta -, porque sabia que podia causar sensação dizendo muito bem ou muito mal do livro. Isso afectou a minha própria percepção do livro, e às tantas estava confuso, já não sabia se tinha gostado ou não. Mas isto acontece a toda a gente, ou pelo menos quero acreditar que sim. Aliás, não acredito mesmo que assim não seja. O problema é que somos todos uns merdas, lá está, com esta dicotomia da verdade dentro de nós e da verdade fora de nós, que às tantas esta última transforma-se (ou apaga) a primeira. Contamina-nos. E não que isso esteja errado, mas luto por isso. Só porque acho que é estúpido, não quero que as coisas sejam assim, e também porque não tenho grande coisa de interesse para fazer, sim, apanharam-me.
E pronto, pá, um adeus ao natal no bordel. É pena separarmo-nos logo agora que o Rimbaud está ali em cima constantemente a mijar para cima do que escrevo (preferia que estivesse a cagar. Acho que assim acabaria por nunca deixar de aqui escrever. O meu sonho é ver alguém cagar literalmente em cima do que escrevo. A sério (fico triste ao pensar que no apanhador no centeio nunca escreverei uma coisa destas. Sinto-me mesmo bem a escrevê-las)). É pena, acima de tudo, separarmo-nos antes do natal - o meu outro sonho era escrever aqui um post de natal (talvez volte cá na altura, se isto ainda estiver de pé (como os que me seguem há uns tempos sabem, os meus blogs vão todos pelo cano blogosférico abaixo passado pouquíssimo tempo do seu fim)). Por outro lado estarei sempre aqui nos próximos tempos, pelo que continuamos todos a vermo-nos, que alegria. E até será interessante, para mim (porque apesar de tudo o apanhador no centeio é um blog escrito para mim, resulta da necessidade de expandir a escrita para uma área de maior auto-controle e auto-consciência), totalmente diferente disto, eu próprio apresentar-me-ei como um novo josé. No fundo isto tudo é assim, estamos sempre a mudar de acordo com as circunstâncias. Penso que sentirei falta das caralhadas a torto e a direito, do cagar despreocupado de ideias estúpidas e infantis, ignorando totalmente o que quem quer que seja possa pensar. Epá, soube bem, nunca tinha sido tanto assim. Fico é fodido por saber que nunca poderei ser tanto assim na vida real, cá fora. Ou, se o for, arrisco-me a uma vida de merda como todos os que o fizeram antes.
Lá estarei, portanto, no apanhador, um blog mais respeitável. No fundo outro blog com base num conceito previamente pensado, tal como este, embora o conceito seja o total oposto do deste. Quando me fartar, como já bem sabeis, lá escreverei um post de despedida e abalarei para outro sítio qualquer. Tem sido sempre assim, e assim é que deve ser, porque como diz não sei quem, a vida é demasiado curta. E eu não sei se concordo mas fica sempre bem dizer uma coisa assim, bonita e fofinha, num texto que se quer também assim, bonito e fofinho, mesmo que venha totalmente a despropósito. Foda-se.

29 Novembro 2007

parafernaliamente

Afinal o novo blog, A Parafernália, foi à vida. Ficam os três do costume. Transferi o template do parafernália para o apanhador no centeio e assim ficaram todos contentes.
De resto, é de assinalar que este é o dia mais ocupado de sempre do natal no bordel, em termos de posts. Bateu-se um record. Não que isso espante alguém.

Um beijinho de solidariedade à pessoa que chegou ao natal no bordel através da pesquisa "dedico-me demasiado ás pessoas e depois fico muito sensivel". Não fiques, elas não merecem. Não te merecem.

you don't believe in happiness (ou você não acredita na felicidade)

Hoje parece que tenho a suprema necessidade de fazer tudo para não estar calado.

título bonito

E como quem não quer a coisa vou matando definitivamente o natal no bordel com estes pequenos posts de merda. Curioso.

sim

E ainda para mais este agora também tá tão bonito, com o Rimbaud a mijar ali em cima.

a parafernália

Criei um blog novo mas ainda não sei se o utilizo a ele ou se recomece do princípio neste. É uma situação complicada. O A Parafernália ficou tão bonito, assim visualmente. Pena é que eu não tenha nada para dizer, e custa-me começar um blog novo para dizer nada enquanto que neste tal não me causa qualquer transtorno. Estou já tão habituado que nem me apercebo disso.

a place called home (um lugar chamado casa)

Gostava que alguém me explicasse porque é que não consigo manter um blog por mais que alguns meses, mas com certeza ninguém me saberá responder. E mesmo que soubessem não há caixa de comentários neste blog e não estou a ver ninguém a dar-se ao trabalho de escrever um mail a explicá-lo. E ainda bem, de certeza que a teoria estaria errada. E mesmo que estivesse correcta eu refutá-la-ia. Sou um orgulhoso.

post de merda

Acho que estou passando por uma daquelas fases em que a cabeça não funciona de todo. É fodido. Mais ou menos. Sim, é um pouco. Um bocadinho fodido. Nada que não se aguente. Até se aguenta bem. Tirando quando não se aguenta. Aí é fodido. Bestialmente fodido. Mas pronto. De resto até dá para aguentar. Mais ou menos. Não deixa de ser fodido. Assim de um ponto de vista globalizante. Dos que globalizam as cenas. Ya. Meu. Curto. Baril.

ripanarrapakeka

O Natal no Bordel entra na fase do seu velório.

28 Novembro 2007

natal no bordel

Os últimos quatro posts foram vomitados de referências. Precisamente o que eu não queria deste blog. Ainda assim, caguei. Do Daniil Harms tenho lido coisas (mesmo) do caralho, a PJ Harvey é uma gaja do caralho, os outros quatro do post seguinte também são do caralho (há lá um do qual ainda não li nada mas acredito que seja do caralho), e o Egon Schiele é o 'do caralho'-mor. Não há artista que chegue ao pezinho dele. E acreditem, os menos conhecedores dessa merda fedorenta a que os cagões chamam 'arte', que eu sei tudo sobre ela.

"fodei-vos" dizia ele

Egon Schiele, Eros, 1911

este natal quero

Este, este, este e um de contos deste. E mais umas coisinhas, embora com estes já não fique insatisfeito.

27 Novembro 2007

quatro razões pelas quais eu amo esta mulher

sem qualquer ordem:
























.razão 2

.razão 3 (caguem no vídeo. oiçam a música)

.razão 4

fizemos as pazes

"Era uma vez um homem chamado Kuznetsov. Um dia estragou-se-lhe um banco. Saiu de casa e foi à loja comprar cola de marceneiro para consertar o banco.
Quando Kuznetsov passava ao lado de um prédio em construção, caiu de cima um tijolo que acertou na cabeça de Kuznetsov.
Kuznetsov tombou, mas logo se levantou de um pulo e apalpou a cabeça. Na cabeça de Kuznetsov apareceu um galo enorme.
Kuznetsov acariciou o galo com a mão e disse:
- Eu, senhor Kuznetsov, saí de casa e fui à loja para... para... para... Ah, mas o que é isto? Esqueci-me por razão fui à loja.
Entretanto, caiu do telhado um segundo tijolo que bateu também na cabeça de Kuznetsov.
- Ah! - exclamou Kuznetsov, agarrando-se à cabeça e apalpando o segundo galo.
- Irra, que história! - disse Kuznetsov. - Eu, senhor Kuznetsov, saí de casa e fui à... fui à... fui à... onde raio é que eu fui? Esqueci-me onde fui!
Nisto, caiu em cima de Kuznetsov o terceiro tijolo. E surgiu na cabeça de Kuznetsov o terceiro galo.
- Ai, ai, ai! - gritou Kuznetsov, agarrando-se à cabeça. - Eu, senhor Kuznetsov, saí da... saí da... saí da cave? Não. Saí da pipa? Não. Donde foi que eu saí?
Caiu do telhado o quarto tijolo, bateu na nuca de Kuznetsov, e na nuca de Kuznetsov surgiu um quarto galo.
Ai, ai, ai! - gritou Kuznetsov coçando a nuca. - Eu... eu... eu... Quem sou eu? Parece que me esqueci do meu nome! Que história! Como é que eu me chamo? Vassíli Petukhov? Não. Nikolai Sapogov? Não. Pantelei Rissakov? Não. Mas quem sou eu?
Nisto caiu do telhado o quinto tijolo em cima da cabeça de Kuznetsov, de maneira que este esqueceu tudo definitivamente e, gritando «oooh!», deitou a correr pela rua fora.

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Por favor! Se alguém encontrar na rua um homem com cinco galos na cabeça, lembre-lhe que se chama Kuznetsov e que precisa de comprar cola de marceneiro e consertar o banco estragado."


Daniil Harms, A Velha e Outras Histórias,
trad. Nina Guerra e Filipe Guerra,
Assírio&Alvim.


o autor

não leiam isto

Era tarde. Eu estava na cama há horas e pensava estou cansado de estar aqui às escuras a olhar para o vazio. Depois vieram aqueles encadeamentos de reflexões que nos deixam completamente na merda e decidi levantar-me. Decidi que o melhor seria ir comer qualquer coisa. O primeiro passo foi ver se havia alguma pizza numa das 3 arcas refrigeradoras da casa ou no frigorífico com a secção refrigeradora em cima, mas nada. Restou-me fazer massa, pronto. Num momento de ousadia peguei num dos tachos onde nunca tinha cozinhado antes. Meti água, sal, um paralelipípedo de knorr e tá a andar. Quando começava a ferver deitei para lá lacinhos às cores, o que é bastante abichanado mas costuma saber muito bem. Entretanto descobri salsichas na despensa. Ah que maravilha, pensei eu, que nem gosto muito de salsichas mas como não comia há muito tempo trouxe uma lata na última vez que fui ao supermercado cujo nome não revelarei para além de que acaba em doce. Enquanto a massa cozia comi duas ou três salsichas. Entretanto ia mexendo com a colher de pau no tacho e provando umas massinhas. Percebi logo, ainda mesmo antes de meter a massa (porque provo sempre o molho), que aquela merda estava salgada. No fim, depois de o molho ter evaporado todo, a massa ficou ainda mais salgada do que pensei vir a ficar. Mesmo assim meti-a toda para dentro, porque tive pena de não o fazer, afinal fôra eu o cozinheiro, e o eu cozinheiro não ficaria contente por o eu javardolas não comer o que preparei para ele (mim), e para além disso o eu javardolas não gosta de arreliar o eu cozinheiro, no fundo tem-lhe um grande respeito embora mesmo sabendo muito bem que só sabe (sei) fazer massa. Em tempos aprendera a fazer ovo estrelado mas como não praticou (...ei) a coisa nunca entranhou e desaprendeu-se da cena, meu. Depois de comer tudo emborquei dois copinhos de ice tea de manga e vim para cima. Liguei o computador, meti-me no blogger e pus-me a escrever um post relatando a minha última meia-hora de vida. A conclusão a que um eventual leitor pode chegar caso tenha chegado até aqui é que de facto a minha vida das quatro e meia às cinco da manhã poderia ser bastante mais interessante do que na verdade foi. Normalmente revejo os posts mas desta vez estou mesmo sem a mínima paciência. Para além de que ler este post deve ser verdadeiramente doloroso e eu de masoquista tenho mesmo muito, muito pouco.

facto

Um diário só tem significado para nós quando o autor é conhecido, o que não deveria ter muita lógica, o que explica muita coisa sobre a nossa espécie, o que muita coisa à qual não consigo aceder neste momento.

roubei

Uma família vai ao jardim zoológico.
A dada altura, diz o filho mais novo:
- Olha um trigue!
Diz o mais velho:
- Não é um trigue, é um leopoldo!
Diz a mãe:
- É pior a ementa que o cimento!
O pai ri-se e diz:
- Quem sai aos seus não é de Genebra!

goldfrapp

É impressão minha ou isto é uma grande merda?
E pensar que estes gajos fizeram em tempos um álbum chamado Felt Mountain.
Foda-se.

26 Novembro 2007

gosto mais de blogs com imagens

Já disse que gosto muito do Araki, não já?

natal música e putas

Acho que nunca houve altura como esta, em que os posts escritos mas deitados no lixo ultrapassam larga, mas larga larga larga, muito largamente, os posts que chego efectivamente a publicar. Só tenho merda na cabeça, e por mais que tente escrever alguma coisa que me satisfaça não consigo. Sou um frígido, e para além do mais não tenho nada para dizer.
Estou a começar a entrar na época de Dean Martin e Nat King Cole. Acontece-me sempre isto no Natal, desde há uns três anos. Começam a enfeitar as ruas de Natal e eu mudo logo o toque do telemóvel para a l-o-v-e do Nat King Cole. Não sei porquê, para mim o Natal passou a ser isto depois de ter chegado ao 1,90m (mentira) e ter deixado de receber presentinhos. Isto e as filhós (filhós, filhoses, não sei, que se foda). E a minha sobrinha a receber jogos para a DS, com os quais fico a brincar depois, durante a noite. E as putas das constipações. Sempre.
Ontem arranjei um álbum do Frank Sinatra. Mas não foi o das canções de Natal. Não é necessário. Todas as músicas dele, do Nat King Cole e do Dean Martin são de Natal.

desafinado

Nunca mantive um blog que se aguentasse tanto tempo como o Natal no Bordel, embora quem o siga desde o início saiba que lá para Junho mudei o layout, apaguei os posts todos e recomecei, por assim dizer.
E era só para dizer isto, que o Natal no Bordel é o blog que, dos mil e quinhentos que já tive, se manteve no ar por mais tempo. Já começa a ser tempo de partir para outra. Vou sentar-me e pensar, como o Poirot.

jockey full of bourbon

Normalmente quando não tenho nada importante para dizer fico calado.
Ok é mentira.

24 Novembro 2007

wong kar-wai (EDIT)


Pensei em colocar aqui uma sequência qualquer de Days of Being Wild, e vou ao youtube ver se há alguma coisa. E então não há! Há não só uma sequência qualquer como todas as sequências do filme. Para quem sente curiosidade pelo filme, pelo realizador, pelo director de fotografia, pelos actores, enfim, pelo que for, tem no youtube o filme na sua totalidade, dividido em onze partes. Se eu não tivesse o dvd (na verdade tenho dois. Em relação ao primeiro, depois de comprado, apercebi-me que estava dobrado para mandarim. O segundo é o da edição portuguesa e é decente) achava tudo isto bastante tesudo.
É um grande filme, um grande início de carreira do Wong. E já agora, se a pessoa que tiver o meu Chungking Express (que eu não sei quem é) estiver a ler isto, diga-me qualquer coisa faz favor.
A primeira parte do filme está aqui. Depois é sempre a andar.

EDIT: Depois de andar por lá mais um bocado acabei por encontrar outros filmes dele, que obviamente recomendo. Acho que toda a gente devia apreciar a beleza dos filmes do Kar-Wai.
São eles:
Ashes of Time (esta dá mesmo tesão porque é o único (aparte o último) que ainda não vi)
Happy Together
Chungking Express (que é para aí o melhor filme de sempre)
Buenos Aires Zero Degree (excelente documentário sobre o happy together)
Making Of 2046 (documentário sobre o 2046 que não vi mas vou ver agora)
Making Of In the Mood For Love (documentário sobre o In the Mood For Love, que tambem não vi mas é já a seguir ao do 2046)

23 Novembro 2007

cegos

- Já tou farto de ouvir essa treta. É sempre a mesma conversa.
- Se bato sempre na mesma tecla é porque acho mesmo que tenho razão, e que tens que passar a ter mais cuidado com isso.
- Epá, mas enervas-me. Sempre a mesma coisa, sempre a bater no ceguinho.
- Cala-te, meu, tens um cego atrás de ti. - Sussurra.
- Ops.
- Deixe lá - diz o cego - eu não vi nada.
- Desculpe lá amigo, não leve a mal. Estávamos só para aqui a conversar.
- Não há problema. Tem uma moedinha para auxiliar?
- Não pá, hoje não tenho cá moedas.
- Bom, então fica para a próxima vez que nos virmos, tá bem?
- Tá bem.
- Adeus.
- Adeus.
- Tenha a bondade de auxiliar o ceguinho - diz o cego enquanto começa a percorrer a carruagem, batendo secamente com a bengala no chão.

blog que é um deserto

Caixa de comentários que é um oasis.

quem peixoto, consente

Então é assim: já li José Luís Peixoto e não posso dizer que tenha gostado muito. Escreve bem e tal mas não sei, dá-me sempre a ideia de que escreve assim, de forma bonita, sensível e fofinha, para levar miúdas para a cama. A sério, dá-me mesmo esta ideia. E é lógico que sei que provavelmente isto não corresponde à verdade por detrás daquelas palavras. A probabilidade de tal se verificar deverá ser mesmo mínima. Ainda assim, é a ideia que me dá, e não temos culpa destas coisas. As ideias dão-se-nos e pronto, é como aquela coisa do no coração ninguém manda. Pronto, é mesmo isso. Aplica-se igualmente, de forma perfeita, às ideias, especialmente as ideias mais parvas. Nelas ninguém manda. Mas não quero falar de literatura, porque para falar de literatura já tenho o outro blog e eu não pretendo misturar as coisas. Quero é manifestar em público, finalmente, o porquê de ter uma coisa (isso mesmo, uma coisa. E não, também não sei exactamente o quê, pois que se soubesse não teria escrito uma coisa, assim, em itálico) com o José Luís Peixoto. Porque é uma situação desagradável que tenho engolido por demasiado tempo que me começa a consumir por dentro e não pode ser, pois recuso-me a viver assim. Se ser consumido por fora já é bizarro, muito mais bizarro é sê-lo por dentro. Não, não é isto que desejo para mim. O meu problema é, custa muito mas tem que ser, há que dizê-lo, que o José Luís roubou-me o nome. Pronto, é isto. O José Luís roubou-me o nome e sempre que penso nisso fico furioso. A sério que fico. Bom, furioso não é o termo, mas não encontro o termo preciso. Só se disser qualquer coisa do género e sempre que penso nisso fico coiso. Tá bem, então fico coiso. Se não vejamos: tenho andado a escrever mais ou menos secretamente durante os últimos anos, já em miúdo dizia quando for grande quero ser escritor, e parece que a coisa permanece. O que tenho escrito não é grande coisa, é verdade, mas tenho a favor a juventude e a persistência, o que para alguém que pretende escrever coisas boas (decentes, vá) é essencial. Imaginemos, porque eu imagino-o de quando em vez, em dias de sol, que um dia publicarei. Imaginemos, e eu sei que é difícil, que os meus livros até vendem muito bem (para o qual contribuirá, quem sabe, a adopção de títulos roubados a filmes do Bergman, à colagem descarada de factos científicos a um enredo empolgante, ou talvez uma reconstituição histórica regada com romance de cordel lá no meio. Ou talvez, simplesmente, uma escrita bonita, sensível e fofinha.). Como será possível dois José Luís no mercado? O universo português do livro é demasiado pequeno para dois José Luís, e eu é que sairei a perder porque na altura decisiva, dos intensos debates públicos, eu é que serei o tal que roubou o nome ao outro que era muito conhecido. Serei o oportunista, o aproveitador, o espertalhão. Isto parece assunto corriqueiro mas não, é muito sério. É a dignidade de um nome que está em causa. Porque se um dia algo meu for editado vai ser com o nome José Luís Bértolo, porque José Bértolo já existe um, o meu pai, e mesmo que ele já tenha morrido por essa altura não me vou aproveitar do seu nome, porque há que manter o respeito. E é por isto que tenho esta coisa com o José Luís Peixoto. Eu tenho a vantagem de Bértolo ser muito mais interessante que Peixoto, é certo, mas ele teve a sorte de nascer e publicar muito antes que eu. Se fosse o José Luís Gógol, ou o José Luís Mishima, ou o José Luís Salinger, tudo bem, eu calava-me, e até inventava um novo nome para mim e tudo, mas não, estamos a falar de um José Luís que escreve como quem escreve para papar miúdas. É muito perturbador.

20 Novembro 2007

romances russos gogol tchekhov contistas russos muitos itálicos e aparente desconexão

Nunca liguei aos russos, sempre achei que os grandes romancistas russos deveriam ser o que vulgarmente se chama uma grande seca. Mas acho que os russos estão mesmo a dar-me a volta, se bem que até agora só li contos, népias de romances (logo, nada impede que no futuro venha mesmo a considerar que os grandes romancistas russos são, efectivamente, a grande seca). Facto (ou a cena) é que não existem contos que eu tenha admirado de forma impetuosa como os de Gogol ou Tchékhov, nem mesmo os contos do meu estupidamente admirado Jerome David Salinger. Perdido nesta pluralidade de factos, circunstâncias e outras diversas cenas maradas, o meu único receio é que num belo dia dê por mim (sim, porque eu dou por mim, seja lá isto o que for) a ler o Guerra e Paz, passando então automaticamente - segundo consta - a ser um homenzinho. Pelo menos é o que sempre me disseram: lês o Guerra e Paz e és um senhor. Ora isto é tudo bastante assustador, e também, como o leitor correctamente deverá estar a pensar neste momento preciso, por demasia inconsequente.

19 Novembro 2007

publicar mensagem

Tento sempre escrever coisas das quais não poderei mais tarde vir a arrepender-me.
Mas e daí é mentira. Nunca penso nisso. Só durante o momento de arrependimento, a partir de hoje vou começar a escrever apenas coisas das quais não poderei vir a arrepender-me. Mas não resulta, nunca. Cometo sempre o mesmo erro, embora considere que não é erro porque sei que o homem não tem culpa da instabilidade, e se o homem não tem eu também não devo ter. Mas o facto é que quando me arrependo de alguma coisa que escrevi sinto-o desagradavelmente. Não me apraz o sentir desagradavelmente, embora sinta muito desta forma, desagradavelmente. Muitas coisas - não só este erro que não é erro. E agora, antes de carregar no publicar mensagem, penso: arrepender-me-ei, mais tarde, deste post? Não sei responder, nunca sei, por isso que se lixe. Publicar mensagem.

16 Novembro 2007

natal aqui

- Tens um blog?
- Sim. Quer dizer, na verdade tenho três.
- A sério? Tens três blogs?
- A sério. Tenho mesmo três blogs.
- Tens assim tanta coisa a dizer que sejam necessários três blogs?
- Sim. Bom, na verdade não.
- Ah. E então porque é que tens três blogs?
- 'Tão, porque... Hmm, não sei bem.
- Se calhar é porque tens a mania das grandezas.
- Quero acreditar que haverá outra razão qualquer.

15 Novembro 2007

oh foda-se

13 Novembro 2007

faço anos

e de presente queria um balázio na cabeça por favor.
Vá lá, só este ano. Prometo.

12 Novembro 2007

confissão

Ninguém me quereria assassinar porque sou demasiado inofensivo, o que não deixa de ser um bocado triste.

marie-antoinette e sofia coppola


O Marie-Antoinette é bonito e tem pessoas bonitas, em especial a actriz principal que aqui está especialmente bonita. Os fatitos são todos muito bonitos e faustosos, e a direcção artística é uma beleza. Tudo é lindo. Às vezes parece estarmos a ver uma passagem de modelos e tudo, dada a sensualidade que transborda do ecrã. Só que não é uma passagem de modelos, é mais uma espécie de poema, que bem vistas as coisas vai dar ao mesmo com a diferença de os poemas normalmente virem da cabeça e caneta de pessoas talentosas. Os bons poemas, claro. E para mim Marie-Antoinette é um bom poema. A Sofia tem cabecinha e o Lance Acord tem mesmo queda para a cinematografia. Há planos muito bonitos, cenas muito bonitas. Tudo, como já disse, muito lindo. E isto é o que se pode dizer do filme, ou pelo menos é o que me apetece dizer sobre o filme porque na verdade sei perfeitamente que poderia dizer muito mais. Gostei do facto de a Sofia se estar a cagar para as convenções de géneros e como consequência ter feito o filme que provavelmente queria, cheio de anacronismos, fragilidades, desequilíbrios, luxúria visual e uma pequena dose de fascínios femininos - não é à toa que dizem que ela, mais que uma mulher realizadora, é uma defensora da visão feminina em filme. Marie-Antoinette não é o biopic do costume e ainda bem, porque estou farto de que as coisas sejam sempre mais ou menos iguais. É um filme pessoal e não um documentário. É bom que alguém tenha testículos para fazer o que já é controverso mesmo antes de nascer. É bom ver gajas que têm testículos. Salvo seja, claro.

são martinho

O Martinho era um gajo parvo que quis ser batizado quando já era adulto e que teve a sorte de um dia ajudar um mendigo na rua que se veio a revelar o próprio Jesus Cristo pelo que teve uma grande sorte porque se fosse um outro gajo qualquer a mendigar ninguém hoje o saberia porque pelos vistos é muito engraçado o Jesus Cristo andar para aí a brincar ao finge-que-é-mendigo e fazendo com que um outro gajo rasgue metade da sua capa para o ajudar quando na verdade o outro poderia rasgar a capa para ajudar um mendigo a sério que estivesse quase a bater a bota devido ao frio. E o Martinho era santo mas ao mesmo tempo também dizem que era um beberolas e ouvi dizer também que era um violador e acabo por ficar confuso. Estas cenas religiosas aliás deixam-me sempre a cabeça muito confusa porque ou é tudo muito complicado ou sou mesmo muito estúpido, e é por causa disto não gosto do dia de São Martinho. E também porque não gosto de castanhas nem de jeropiga.

10 Novembro 2007

dáruine

Não tenho a certeza que o homem seja por natureza um animal social. Provavelmente é mais um animal estúpido que por alguma razão insondável necessita do contacto com outros seres da mesma espécie, mesmo que em 95% dos momentos os exemplares da espécie não se entendam, porque a comunicação é uma treta, uma ilusão de que através dela somos todos capazes de nos compreendermos muito bem. O caralho! Eu não faço a mínima ideia do que a maioria das pessoas me está a dizer. As palavras não são suficientes para dizermos o que queremos. Na maior parte das vezes nem sabemos o que queremos dizer. Andamos por aqui perdidos a fingir que compreendemos bastante bem a lógica das coisas, que nos movimentamos no mundo com á-vontade.

Na altura do Nobel falou-se no nome de Murakami. Ninguém no seu pleno juízo acreditaria que o Murakami pudesse vencer o Nobel da literatura, mas facto é que se falou. Não sei muito bem porquê. E na altura li num blog qualquer 'Murakami? Nunca!', porque segundo o tal senhor Murakami é do domínio do gosto popular. Não é suficientemente bom para poder ganhar um prémio com o prestígio de um Nobel. E eu apenas questiono. quésta merda?, digo eu. Que espécie inteligente é esta que acha que a sua lógica terá forçosamente que ser a lógica dominante? Que é isso do suficientemente bom? E o prestígio, já agora (essa do prestígio é mesmo uma típica criação de merda do homem-animal-social). Mas a literatura não vem do âmago? Então, se vem dos interiores não pode haver literatura boa ou má, porque não há pessoas boas ou más. Somos todos mais ou menos iguais, pelo menos em termos qualitativos. Um Nobel vale exactamente a mesma poia tanto para mim como para o Saramago, a única diferença tá na guita que ele recebe com o prémio.

A culpa é essencialmente da comunicação. Através da comunicação crescem como pragas este tipo de ideias, do bom, do mau, do correcto. A literatura é isto. Há a light e há a gama média e há a muito boa. Os clássicos e as obras-primas. E isto em tudo o resto, também. Tudo perfeitamente dividido, não sei se por conveniência ou por estupidez. Por alguma razão achamos que é mais fácil viver num mundo cheio de prateleiras. É que não é.

Isto é chato nessas pequenas coisas, como a literatura por exemplo, porque faz com que pessoas que querem escrever coisas diferentes, que não se encaixem no que se acha que a literatura deve ser (boa ou má), se fodam bem. Mas o pior é no dia-a-dia, nas queridas de toda a gente relações sociais. Às tantas reflicto na forma como ajo e reajo às coisas e percebo bem que a minha manobra de acção é muito pequena, certamente porque desde sempre me tive que habituar a agir mais ou menos como o esperado. Isto é bastante óbvio, bem sei, mas é também bastante trágico, porque nunca chega sequer a existir o sentido do existir por existir, da felicidade pura pela existência pura. É difícil, quase impossível hoje, porque a vida tornou-se uma puta e nós tornámo-nos putas perante a vida. É forçoso sê-lo porque são esperadas de nós infinitas coisas.

Mas a culpa é nossa, da espécie, e da pretensa inteligência que nos deixou chegar a este ponto. Aposto que os homens do neanderthal eram muito mais felizes. Viviam muito menos anos. Provavelmente uma constipação mais lixada matava-os e pronto. Viviam a fugir dos predadores, num mundo que escapava completamente ao seu controle. Provavelmente dormiam bem à noite porque andavam sempre cansados devido à exigência física do seu dia-a-dia. Mas não eram infelizes, não acredito muito que o fossem. Nós somos, uns filhos da puta duns infelizes. Quando a vida não corre como queríamos ficamos fodidos porque achamo-nos no direito de que ela corra bem, porque já temos à partida a ideia distorcida do que o 'correr bem' é. E temos a literatura e a música e a televisão e a tecnologia que não são muito mais que masturbação mais ou menos intelectual do tipo ah somos mesmo especiais criamos coisas muito lindas somos a única espécie capaz de conhecer o mundo. Por mim passávamos a vida a caçar para comer, a ser caçados para ser comidos, cagar mijar foder, e rir e chorar um bocadinho. Mas isto nem nunca mais será possível. Evoluímos no sentido errado. Azar o meu.

insólito episódio

Estava a brincar.

episódio insólito

Estava sentado no metro a caminho de casa quando se senta uma miúda à minha frente, que ao ver-me a descansar os olhos da leitura de um Mishima aproveita e mete conversa.
- Gostas de Mishima? - pergunta-me.
- Gosto.
- Eu adoro Mishima. A forma como ele descreve pessoas e sentimentos aparentemente simples.
- Pois. É exactamente por isso que gosto dele.
- Ao lê-lo ficamos mesmo com a ideia de que escrever é facílimo. Está ao alcance de todos nós.
- Exacto.
E reparo que é gira. Tem os cabelos castanhos escuros a descer até pouco abaixo dos ombros. Os olhos rasgados são verdes, os dedos são esguios e aposto que estão frios, apetece agarrá-los. Parece estar vestida de forma simples e de bom gosto.
- Fazes o quê? - pergunta.
- Tou a estudar. Faculdade de belas-artes.
- Odeio essa faculdade.
- Eu também.
- Odeio a maior parte dos artistas. São todos uns armantes.
- Tal qual - digo entusiasmado.
Armantes. Faz-me lembrar o À Espera no Centeio.
- Essa expressão, armantes, faz-me lembrar o À Espera no Centeio. Já leste?
- Claro. Adoro Salinger. É excelente. Identifico-me imenso com o Holden Caulfield. Às vezes também odeio todos e faço figuras tristes porque estou constantemente a corrigir-me e a contradizer-me.
- Tal qual. - e pareço não conseguir dizer mais nada.
- Hoje fiz umas compras - diz ela enquanto me mostra o interior do saco da fnac. Três dvd's. O Pickpocket do Bresson, o Bande à Part do Godard, a edição da Criterion do In The Mood for Love, do Kar-Wai.
- Ena - excalmo - Queria mesmo comprar esses dvds, mas não tenho a guita.
- A mim felizmente o dinheiro nunca falta - responde-me e faz uma breve pausa - Os meus pais foram passar o fim-de-semana ao Japão. Podemos ir lá para casa vê-los.
Fins de semana no Japão. Reparo que tem umas mamas jeitosas. Digo-lhe que sim e penso que para ser perfeito só falta ela dizer que anda há anos à espera do novo dos Portishead e tem andado a delirar com os novos de The National, PJ Harvey e Radiohead nos últimos tempos.
- Bem, ando há que tempos louca para que saia o novo dos Portishead. Adoro-os e é insuportável que tenham só dois álbuns de originais. Mas ultimamente lá me tenho divertido com os últimos dos The National, da PJ HArvey e dos Radiohead. São excelentes, aconselho-tos. - diz ela por fim.

08 Novembro 2007

música no coração

Há dias em que apetece mesmo pensar que a culpa é de todos menos nossa.

07 Novembro 2007

os cães dos meus amigos

Sou péssimo a decorar nomes de cães.

proposta decente

Se a quantidade de spam que eu recebo no meu email relativo a aumentos de pénis fosse directamente proporcional ao número de aumentos reais de pénis garanto que só em Portugal já tudo o que é pessoa com pénis teria pelo menos cinco centímetros a mais. Os homens seriam felizes porque teriam o ego inflacionado e as mulheres porque andariam satisfeitíssimas com os pénis inflacionados dos homens. Portugal seria um país menos deprimido.

romance de amor louco ainda sem título

Pus mãos à obra e até já comecei o romance. E comecei pelo fim, que é desta forma - imagino eu - que se começam os romances de cordel.
Segue-se então o parágrafo final do romance prometido no post anterior, e a promessa de mais um escritor cor-de-rosa no panorama sempre fascinante da nossa literatura.




Depois da porta aberta Santiago entrou no quarto do hotel com Antonieta bem segura pelos seus braços longos e fortes. Olhou-a e sorriu perante o seu sorriso de criança que entra num parque de diversões. Deu-lhe um beijo lânguido e apaixonado e caminhou para a cama depositando-a sobre os lençóis perfumados. “Vamos fazer amor aqui mesmo”, disse ele enquanto se regozijava com a imagem da sua noiva espreguiçando-se de felicidade. “Mas primeiro tenho que tomar banho, meu amor”, respondeu ela, “o ar deste país é quente e carregado de humidade. Tenho que tomar um banho primeiro, sinto-me imunda”, e nisto Santiago deu consigo a pensar no dia em que a vira pela primeira vez entrar pela porta da oficina onde ele trabalhava, de porte gracioso, as enormes pernas descobertas, e no calafrio que lhe percorreu o corpo quando pensou para si, mais certo que nunca das suas palavras, “esta mulher será minha”; pensou nas noites que passaram escondidos das suas famílias que sempre desaprovaram a união, em motéis cujas contas ela insistia em pagar; pensou no dia em que o irmão dela foi à oficina e o ameaçou de morte; na noite em que a vira lavada em lágrimas antes da sua partida forçada pela família para a casa da sua tia na Bélgica; no dia em que, após semanas de viagem, chegara à Bélgica e a amara como um rapazote que descobre o corpo de uma mulher pela primeira vez. Ao lembrar-se disto tudo concluiu que o amor que os unia tinha sido suficientemente forte para destruir tudo e mais alguma coisa que se atravessara pelo tortuoso caminho, e sentiu-se feliz por ter a sorte de poder estar hoje, livre, junto à única mulher pela qual valia a pena viver. Não havia necessidade de um banho. Por dentro, Antonieta era a mais pura das mulheres. “Fazemos amor assim mesmo”, disse ele por fim enquanto levantava a saia da sua esposa e despia as calças, louco de desejo e paixão, “não há razão para tomarmos banho agora quando hoje somos ambos os seres mais puros deste planeta”.

F I M

[edit:o título anterior teve que desaparecer se não o bordel ainda ia abaixo)


E para os que chegam cá através das variadíssimas pesquisas com o termo bordel lá no meio aqui deixo um desenho de Toulouse-Lautrec - efectuado num bordel verdadeiro - de uma puta verdadeira. Se não o conhecem convém saber que o Lautrec era um pintor francês de finais do século XIX profundamente infeliz com a sua condição de aleijadinho, mas isto tudo muito escondidinho lá dentro do seu corpo deformado porque diz quem o conhecia que era homem alegre. Facto é que passou parte da curta vida em bordéis a observar e desenhar putas e a masturbar-se atrás das portas enquanto as ouvia a fingir orgasmos do outro lado da madeira, porque como era aleijadinho as putas não o queriam foder a não ser a troco do bom dinheiro que ele não tinha.
Um dia fodeu uma das putas que tinha as mamas mais descaídas e por isso era menos exigente com um pincel dos grossos e a gaja foi-se chibar às colegas de profissão da maravilha que foi e do quão habilidoso o homem era com as mãos, o que fez dele - daí para a frente - um verdadeiro favorito das putas francesas da época, que não o largavam nem por nada. Ainda hoje é relembrado em França mais por isto do que pela sua arte.
Bom, isto é metade verdade metade mentira mas quem chega a este post por causa da palavra bordel ou qualquer outro dos bonitos termos estampados no título quer é cenas excitantes e tesudas, pelo que é assim mesmo que fica a história. Pode ser que chegue aqui algum aleijado infeliz e se inspire e parta para França em busca de rata.
Um dia dedico-me a escrever um romance com foda desenfreada lá para dentro, mas sempre com muito amor porque parece que é isso que excita as gajas consumidoras de tal tipo de romance, muito mais que propriamente o sexo. Invento um homem pobre, uma mulher rica, desencontros dos quais o cruel destino é culpado e um final condimentado com bastante açúcar, pode ser um casamento. Não, é melhor uma lua-de-mel, na qual ambos - após tantos e tantos precalços - acabam a foder num quarto de hotel de cinco estrelas num país qualquer onde simultaneamente mais de metade da população morre à fome, mas fodem com muito amor, se não isto seria menos excitante que o casamento e eu quero é deixar as leitoras excitadas no final, ansiando loucas o próximo romance. Depois será ver os livros nas mesas das livrarias ao pé do Nicholas e da Nora, o meu ego preenchido e os meus editores a encher o cu com os milhares de exemplares que vou vendendo.

oscars

Uma saudação especial para a pessoa que chegou ao meu blog através da pesquisa quero um texto em francês sobre o natal. Prestar este género de serviço público faz-me sentir bem.

uma mão no ventre


Quase sempre que tenho dado por mim nos últimos meses estou zangado. Pareço aquela personagem que a Sandra Bullock faz nessa merda de filme que é o Crash, a diferença é que ela tinha um marido rico e eu não tenho quaisquer ricos à minha volta que tornem o facto de estar zangado mais fofinho. Ai tás zangado? Então toma lá quinhentos euros para ir comprar a filmografia toda do Godard, que agora anda a sair toda no mercado como um jacto de diarreia. Olha e toma lá mais dois mil, para comprares o portátil e a máquina de filmar. E compra umas garrafinhas das boas. E coca da boa, para o aborrecimento.
Não. Nada disso.
Nada fucking disso.

O Mapplethorpe devia estar muito zangado quando fez este auto-retrato. Deve ser por isso que gosto desta foto desde passado o espanto inicial. Se calhar acho que me identifico, com o olhar vamos lá ver, e com aquela cena do tou-me a cagar foda-se. Aqui a diferença já é que não meto chicotes pelo cu adentro, óbvio. E que se calhar não me tou a cagar. Foda-se.
No fundo sou um cliché, e o que me acalma é que somos todos. Sinto-me mais parte da humanidade assim. É fofinho.

slither

Hoje vi isto e era mesmo o que necessitava. É óptimo. Do mais estúpido e divertido que existe. O trailer está aqui e garanto que o filme é tudo o que se vê no trailer mas elevado ao quadrado.
Estou muito contente por ter perdido uma hora e meia de vida alheio na pura diarreia criativa. Era mesmo o que precisava. Que se fodam os Bergmans! E por falar nisso, tenho que comprar o Le Mépris. E já lançavam o l'Aventura e o La Notte em Portugal a preços decentes, bem como tudo o resto que falta da filmografia de Antonioni.

Não era bluff. O Slither é mesmo um filme muito engraçado.

06 Novembro 2007

letrista herege

(Um gajo que escreve letras como um filho da mãe)

Well-meaning little therapists
Goose-stepping twelve-stepping Tetotalitarianists
The tipsy, the reeling and the drop down pissed
We got no time for that stuff here
Zero crime and no fear
We've bred all our kittens white
So you can see them in the night
And at night we're on our knees
As quiet as a mouse
Since the word got out
From the North down to the South
For no-one's left in doubt
There's no fear about
If we all hold hands and very quietly shout
Hallelujah
God is in the house
Oh I wish He would come out
God is in the house

04 Novembro 2007

uma verdade inconveniente resumida

Quando era miúdo não eram poucos os que me tinham como um pequeno geniozinho, tão fofinho e esperto. Tive várias pessoas à minha volta durante as várias fases da minha vida a estimar-me estupidamente demasiado, o que me levou a crescer com o complexo do extremamente-inteligente-que-se-vai-revelando-perfeitamente-ordinário.
Acho sinceramente que esta foi uma das principais razões para o meu parcial falhanço como pessoa adulta. Só nos meus últimos meses de vida tenho aprendido mais ou menos inconscientemente a desaprender e só recentemente me começo a sentir um bocado em paz com o mundo (parece uma frase-espectáculo mas não é, a tristeza saloia não mora cá).
Hoje escrevi isto porque durante momentos me apeteceu esbofetear todas as pessoas que ao longo dos tempos me fizeram crer que sou verdadeiramente espectacular. Sem querer acabaram por me estragar um bocado parte da vida. Não acho que esteja a ser injusto.
E não há climax nesta história. É tudo cagado assim muito de fininho.

lista de compras de natal

Sonhava com os The Smiths, cujos membros tinham bexiga hiperactiva e cujas músicas, todas elas, tinham precisamente a hiperactividade da bexiga como tema. Estavam num concerto, aqui em Portugal, e eu via-os entusiasmado (gosto muito de The Smiths) mas eles tinham que interromper o concerto constantemente para irem mijar e todos na assistência ficavam chateados com isso, mas eu não, porque compreendia. Também sofro disso e sei como é fodido.
E depois o telemóvel começou a cantar a Venus in Furs, dos Velvet Underground, e eu acordei. Falava o paizinho, já estavam em Vila Franca (chegavam do Norte) e acordavam-me para eu ir tomando banho porque ao meio-dia e meia teríamos que estar no restaurante. E permitam-me agora aqui uma prolepse.
Voltávamos para casa de pança cheia (e, no caso da minha, ligeiramente instável) quando passámos pela casa do Manel. O meu amigo Manel, bom colega de turma durante os três anos que duram o 3º ciclo. Encontrei-o há uns tempos no Chiado com uma miúda não extremamente gira. Mais magro (o Manel dizia não ser gordo. 'Eu sou forte', dizia), a falar com muito à-vontade, um aparente comunicador nato. Não nos víamos há muito tempo, desde aquela vez em que nos encontrámos na estação de Sete Rios quando eu ia para a Faculdade onde na altura estava, a de Letras, e isso notou-se. A conversa foi a de merda que se costuma ter sempre com pessoas que não vemos há muito tempo. Então como é que tás? Que é que tens feito? Como corre a faculdade? E damos sempre a impressão uns aos outros de estarmos muito felizes. Está tudo a correr tão bem e sorrimos como se não houvesse amanha. No fundo é uma cena muito estúpida e deprimente. Nesses momentos sinto-me uma puta barata desesperada por vender o produto.
E bem, enquanto sentado no carro, pus-me a lembrar dos amigos dessa época. O que eram na altura e o que são hoje, o que se esperava na altura que viessem a ser hoje, as circunstâncias da altura e as de hoje. O Manel parece-me ter seguido o caminho que se esperava. Estuda Gestão, uma coisa fascinante, como o próprio Manel aliás. Outro deles também faz o que se esperaria, não prosseguiu os estudos e joga futebol enquanto trabalha, a diferença é que esperávamos que viesse a ser um grande jogador do Sporting mas afinal acho que joga no Damaiense ou algo do género. Outro engravidou a namorada, pegou nela e foram para a Ericeira. Não falo com esse há muitos anos. Provavelmente nunca mais lhe falarei e não tenho saudades. Há outro que foi pai, vi-o há uns meses e está bastante obeso, vive com a sua namorada. Imagino que devam ser felizes. Uma outra foi mãe também. Outra fui encontrá-la na casa das sandes no Colombo. Trabalha lá numa loja qualquer, trocámos números de telemóvel e felizmente ela ainda não teve a ideia de me ligar. Disse-me que uma outra que também não vejo há muitos anos e que era um pouco feia está hoje muito linda, muito feminina. Não acreditei muito, mas lá está, não o disse, nestas alturas nunca dizemos o que queremos dizer. E por falar nisto vi uma outra num Continente encavalitada no namorado. Ainda parece uma tábua de passar a ferro. A outros perdi completamente o rasto. Apenas um permanece e é porque seguimos juntos no secundário e acabámos por ir para a mesma faculdade.
Agora vou ao que interessa para o post (sim, até agora era palha, embora não prometa que agora venha a ser melhor). É que isto levou-me a compreender melhor um livro sobre o qual escrevi aqui há uns tempos, o Beatles do Lars Saabye Christensen. É esta nostalgia com que se olha para um grupo de amigos do passado e se pensa no eu da altura, da percepção que tínhamos de nós e das pessoas à nossa volta, do que imaginávamos poder vir a ser o futuro e, hoje, confrontar com a realidade, que é quase sempre menos brilhante que o que se pensava. É uma nostalgia, mas não propriamente sentimental. É como olhar o passado através de um filtro de cor. Parece foleiro mas é mesmo assim, porque ninguém olha o passado e o vê exactamente como ele era, vemos sempre com a distância de quem sabe mais hoje que na altura, o filtro de cor é uma tentativa rasca de evocar os tons desfasados das fotografias velhas. O nosso olhar sobre esses tempos é sempre uma construção, e é uma construção interessante. Não serve para muito, mas quando vamos no banco de trás de um automóvel é melhor para passar o tempo durante o percurso restaurante-casa do que contar os carros que vemos pelo caminho ou os sinais vermelhos que apanhamos.
Queria acabar este texto de outra forma mas não parece que esteja a consegui-lo, o que demonstra que como escritor ainda sou por vezes demasiado medíocre.

03 Novembro 2007

licenciatura

Parece que é mais um que deixarei. Penso que começo inconscientemente a planear correr os cursos todos da área da grande Lisboa, depois expandir a minha área de acção para outras cidades de referência do ensino em Portugal (isto é um pouco a brincar porque Portugal não tem em lado nenhum ensino de referência) e depois, só e finalmente depois, correrei o resto do mundo. Quando for idoso terei 60 cursos inacabados mas uma experiência de vida invejável. Todos quererão ser eu porque a essa altura serei um nome de destaque no livro do Guinness, e não há nada que faça um país e um povo como Portugal e os portugueses mais felizes do que uma entrada no livro do Guinness.